Veteranos e novatos

Este é o último artigo de uma série de três derivados de uma palestra apresentada na FAPE em outubro de 2006.


Muita inovação acontece nas margens do sistema, pelas mãos de quem ainda não faz (ou nunca vai fazer) parte das panelinhas que todo mundo presta atenção.

Quem está em destaque tem uma certa obrigação oculta de continuar fazendo sucesso. Isto não está escrito em lugar nenhum, mas eles se sentem pressionados mesmo assim. Por causa dessa pressão invisível é que eles tendem a se concentrar em atividades de baixo risco. Uma das práticas de baixo risco mais comuns é repetir seu primeiro grande feito à exaustão. Se você já descobriu algo que faz sucesso, porque arriscar? Veja Dan Brown, por exemplo. Depois que ele escreveu O Código Da Vinci e o livro apareceu em listas de mais vendidos do mundo inteiro, ele já o reescreveu algumas vezes. Claro que o título e o enredo mudam toda vez, mas a estória é essencialmente a mesma. Ele faz isso porque dá certo. As pessoas compram os livros dele porque sabem o que esperar.

Repetição não é ruim. Repetição é um dos elementos fundamentais da evolução. Quando os animais se reproduzem eles basicamente se repetem, fazem cópias de si mesmos. Se essa repetição fosse exata, o que chamamos de clonagem, não haveria evolução porque não haveria mudança. Mas na vida real o que acontece é que a estrutura básica é repetida e mudam-se alguns detalhes menores como a cor dos olhos, a espessura dos pêlos e a estatura. A partir destas pequenas diferenças é que ocorre a evolução. O mesmo ocorre com as idéias de sucesso. Sua estrutura principal é repetida e alguns detalhes são modificados. De acordo com a receptividade, estes detalhes são novamente modificados e novas mutações são testadas.

Os veteranos em todos os ramos são muito bons nesse tipo de evolução experimental, eles podem mudar pequenas coisas de modo a gerar coisas novas mas extremamente parecidas com as antigas. Este processo é lento por natureza. Para chegar a um novo produto desse modo é necessário fazer várias modificações e cada uma das modificações precisa ser testada para a aceitação do público. Isto leva tempo.

Mas às vezes o que precisamos não é de evolução lenta. Às vezes precisamos de saltos evolucionários para não ficarmos presos em máximos locais. Para isso é necessário introduzir um elemento inesperado, uma fonte de aleatoriedade qualquer. Na natureza, a reprodução sexuada vem cumprindo muito bem esse papel e nos negócios sangue novo também é muito bom para isso. Os novatos não tiveram as idéias influenciadas pelas limitações atuais do mercado e da tecnologia, por isso têm facilidade para pensar em coisas completamente novas.

Essas limitações podem ser um grande problema. As idéias novas parecem preferir as cabeças mais frescas. Quando se está no meio da selva matando um leão por dia, fica difícil achar tempo para ter grandes idéias e pensar no futuro. Muita gente acaba queimando a língua por causa disso.

Há controvérsias, mas algumas fontes relatam que Thomas Watson, então presidente da IBM, disse em 1943 que talvez houvesse no mundo inteiro mercado para cinco computadores. Era a época da Segunda Guerra Mundial. Os computadores eram usados principalmente para quebrar códigos de mensagens militares e eram grandes a ponto de ocupar várias salas. Naquela época não havia a sala dos computadores, mas as salas do computador.

Nessa situação é fácil imaginar que o mundo teria poucos computadores. Era preciso ter muitos recursos para isso e as únicas entidades com recursos e interesse suficientes para obter um eram uma meia-dúzia de governos.

Já a revista Popular Mechanics, em uma edição de 1949 acertou em cheio. Eles publicaram que “no futuro, os computadores pesarão não mais do que uma tonelada e meia.” Algumas décadas depois realmente é difícil achar um computador com uma tonelada e meia. Mas é fácil encontrar um com alguns gramas no bolso de qualquer adolescente.

Em 1977, quando a Apple lançava seu computador pessoal Apple II, Ken Olsen, fundador da Digital Equipment disse que não via razão para alguém querer um computador em casa. A DEC produzia o que eles chamavam de mini-computadores que eram usados principalmente para pesquisa científica. Realmente, ninguém iria querer um desses em casa, mas hoje muita gente não sabe como iria viver sem um computador pessoal.

Os produtos realmente inovadores são surpreendentes porque ninguém acha que precisa deles antes de existirem. Ninguém precisava do computador pessoal antes dele existir. Ninguém precisava de celulares. Ninguém precisava de câmeras digitais. Ninguém precisava de mouses. Mas hoje tem muita gente que não sabe como vivia antes deles.

Todas estas pérolas são de gente que já estava envolvida em seus respectivos nichos há um certo tempo. Eles simplesmente não conseguiam ver os saltos evolucionários. Eles estavam muito ocupados resolvendo os problemas de hoje e não tinham tempo para pensar nos de amanhã.

Os novatos não têm essas limitações ainda. Eles não foram tão expostos à situação atual como os veteranos. O problema deles é outro: recursos.

Semana passada eu li sobre como as telecom estão querendo estratificar a Internet para cobrar direitos de transmissão sobre os meios de alta velocidade. Na ponta dos links da Internet estão os roteadores e eles têm uma fila interna. A idéia é que se você pagar mais, seus pacotes (suas mensagens) tenham prioridade de transmissão. Atualmente, a fila é mais ou menos justa: se você chegar primeiro, você é atendido primeiro. O que eles querem é que algumas pessoas possam furar a fila.

Se elas conseguirem fazer isso (e eu não tenho certeza de que seja possível), vai ser um grande golpe para a inovação. Muitas das idéias inovadoras de hoje saem das cabeças das pessoas comuns e elas não têm os recursos que as grandes corporações têm. Se as filas de transmissão não fossem igualitárias, não seria possível que um programador de São Francisco inventasse e testasse o BitTorrent. Se os grandes provedores de conteúdo tivessem preferência de tráfego, ele não poderia fazer suas experiências usando sua conexão residencial comum. Os pacotes dele teriam prioridade extremamente baixa e ficariam um bom tempo presos no congestionamento. Seria preciso convencer algum investidor com bom poder de fogo a financiar o projeto. E os investidores podem não ser muito receptivos à inovação.

Inovar é arriscado e quando você é velho e famoso, não pode se dar ao luxo de fazer papel de idiota. Mas se você é jovem e desconhecido, ninguém vai ficar sabendo do seu fiasco. Você pode ousar mais quando não tem medo de bancar o idiota.

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