Pagando as dívidas

Estou lendo O valor do amanhã de Eduardo Giannetti. Ele é um economista (não um programador, como a maioria dos autores que leio) e este livro em particular é sobre trocas e negociações intertemporais. Quando escuto dizer que um economista está falando de trocas intertemporais, não consigo evitar pensar em juros aplicados ao mercado financeiro. O que achei interessante é que Giannetti vê os juros em um contexto maior, identificando-os, por exemplo, na biologia. Aparentemente isto não tem nada a ver com software ou tecnologia, mas é por isso que o subtítulo do blog fala em devaneios.

Acontece que existe no cérebro dos programadores um mecanismo que faz ele relacionar (quase) qualquer coisa que lê com seu trabalho. Talvez os mais antenados já tenham identificado aonde quero chegar: o conceito de dívida de projeto, que talvez você já conheça pelo termo em inglês design debt.

Giannetti destaca a diferença entre envelhecimento e a senescência, dois mecanismos geralmente referenciados apenas pelo primeiro termo. Envelhecimento é o simples passar do tempo, o mecanismo pelo qual avançamos em idade e experiência. Senescência é o mecanismo que debilita um organismo com o passar do tempo. A senescência é o custo pago pelo vigor da juventude. Assim como os juros financeiros, a senescência é um custo pago na velhice (futuro) em troca de um benefício na juventude (presente). O organismo dispõe de tanta energia na juventude justamente porque vai pagar por ela na velhice.

O universo do desenvolvimento de software não está livre dos juros. Para cada atalho que tomamos no presente, cada “jeitinho” que damos, serão cobrados juros no futuro. Assim como no mercado financeiro, a quantidade de juros envolvidos na transação depende do tamanho do empréstimo que tomamos. Assim como não se deve rolar muito as dívidas financeiras, não se deve postergar demais o pagamento das dívidas de projeto. Quanto mais tempo correr, mais juros terão que ser pagos. Isso é um bom negócio para quem empresta dinheiro, mas não para quem produz software.

Todos nós queremos sistemas que durem bastante tempo e que continuem gerando dividendos: sistemas velhos. Mas ninguém quer um sistema senil, um no qual a receita não compense o esforço gasto com o pagamento de juros. Então é melhor consertar hoje aquelas pequenas gambiarras que você fez ontem. Cada vez que pensar “puxa, isso deveria mesmo ser feito de outro jeito, mas vou fazer desse jeito aqui para ir mais rápido”, não pare na parte do pensamento. Uma abordagem muito mais indicada é fazer do jeito rápido, ter testes que comprovem o funcionamento e consertar para o jeito certo.

Nota: O Motiro foi oficialmente lançado nesta segunda-feira. Pensei em fazer um post para anunciar isso, mas este blog já está tão infectado com notícias sobre Motiro que preferi fazer somente esta notinha aqui. Maiores informações (e links para o código-fonte e downloads) no blog do projeto.

1 Response to “Pagando as dívidas”


  1. 1 juca 22/mar/2006 às 19\0719

    O Eduardo Gianetti é um dos economistas mais didáticos que conheço :-) Seus textos sobre juros em outras áreas que não economia são fantásticos. Vale a pena ler sobre “juros e o casamento” também (assim que achar, comento aqui).

    Mas falando em “juros de software”, existe uma parte no livro lançado pela 37signals, chamado Getting Real, que fala destes juros, mas com outro enfoque. Basicamente, se você faz um pequeno “hack” para ajustar algo, mas não é a solução mais apropriada, então você está “devendo” para seu software. E você deve pagar suas dívidas antes que elas virem uma bola de neve, ou seja, antes que a quantidade de hacks seja tão grande a ponto de inviabilizar uma manutenção futura.–>


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