Erros de programação não existem…

…isso é coisa da sua imaginação.

Às vezes — e aqui sempre não seria uma aproximação tão grosseira — quem desenvolve um programa não sabe exatamente em que sistema ele será usado. É fácil ter uma ligeira idéia, mas há usuários demais para que seja possível ter certeza. Você já deve ter ouvido slogans do tipo “Escreva uma vez, rode em qualquer lugar”, mas isso é só propaganda. Claro que uma plataforma comum dá alguma segurança e aumenta a produtividade. Mas se você quer saber exatamente como seu programa se comporta nas mais variadas configurações, você precisa testá-lo. Não tem jeito. Você precisa soltar o coitado neste lugar inóspito que é o mundo real e ver como ele se sai. Pode parecer injusto, mas é para o bem dele.

Os usuários esperam que as coisas Simplesmente Funcionem ™ e saber o que eles esperam é um trabalho de requisitos e testes, não de programação. Isto não quer dizer que programadores não devam fazer isso, mas que as habilidades que eles devem ter vão além de escrever código. Isto envolve muito condicionamento, bastante experiência e um bocado de imaginação. Mas se um programa não funciona do modo esperado em alguma situação, ele não está errado. Se eu não programar o EclipseFP para saber que alguns módulos poderão ser importados de outra parte do mundo fora do meu controle, se seu formulário não estiver preparado para o espertinho que escreve os números por extenso ou se Joel Spolsky não previr que na Polônia o Alt-Direito é usado para digitar caracteres especiais, não quer dizer que nossos programas estejam incorretos. Eles estão corretos para algumas das possíveis situações.

Todo programa é escrito e testado com algum uso em mente. Mesmo que os testes não sejam escritos em linguagem de computador, todo mundo testa o que escreve pelo menos uma vez de forma manual. Obviamente estou simplificando um pouco as coisas aqui. Afinal existe gente que escreve programas e não precisa (ou não quer) se dar ao luxo (ou à sanidade) de executá-los antes da entrega. Mas, por favor, vamos desconsiderar esses prodígios (ou azarados) pelo bem do argumento. Se o código for executado e validado várias vezes de forma automática à medida que evolui, a chance de que deixe de funcionar diminui. Mas o fato é que, mesmo se você estiver escrevendo testes automáticos como deveria, eles não cobrem todas as situações. Eles não conseguem fazer isso. É simplesmente impossível porque o espaço de busca é potencialmente infinito.

Testes não podem garantir que um programa nunca vai se comportar de forma inesperada. Nada pode. Se seu programa for usado por uma variedade razoável de pessoas, alguém em algum lugar do mundo vai ter a chance de dizer “como diabos eles não pensaram nisso?”. Tudo que você pode fazer, se você tiver cuidado e reservar bastante tempo para pesquisa e testes, é garantir que quem vá dizer isso esteja em um lugar bastante remoto. Mas vai haver alguém. Sempre.

Erros de programação — diferentemente de fantasmas, lobisomens e sacis — não existem. O que existe mesmo são situações não previstas e testes que ainda não foram escritos.

2 Responses to “Erros de programação não existem…”


  1. 1 mD 13/set/2006 às 10\1001

    É claro que erros de programação existem: Divisão por zero, casting errado, InvalidPointerOperation, etc… Agora, se algum erro é provocado pq o usuário tentou executar uma tarefa de uma outra maneira não prevista, aí é outra coisa.

  2. 2 Thiago Arrais 15/set/2006 às 13\0117

    E estes erros não são provocados porque o usuário tentou executar algo de uma maneira não prevista?


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