Arquivo de abril \30\UTC 2007

Novos Debian e Ubuntu: Instalação e efeitos visuais (resenha)

Este é o primeiro artigo de uma série com minha avaliação do Debian Etch e Ubuntu Feisty Fawn, lançados em abril de 2007. Os demais artigos serão publicados em breve, conforme sejam finalizados.


Abril foi um mês bastante movimentado no mundo Linux. Duas das maiores distribuições publicaram novas versões estáveis: o Debian 4.0 (Etch) saiu dia oito, quase dois anos depois do Sarge, e o Ubuntu 7.04 (Feisty Fawn) saiu duas semanas depois (quinta-feira, dia 19). Eu uso as duas no meu desktop principal e como iria fazer a atualização de qualquer modo, resolvi aproveitar para dedicar algum tempo a uma resenha simultânea.

Meu intuito não é criar mais uma polêmica com um artigo do tipo “Ubuntu matando Debian”: eu sinceramente não acho que o Ubuntu tenha esse tipo de tendência suicida. Esta breve resenha é somente para oferecer minha visão de usuário e entusiasta das duas distribuições. Eu sou programador (e, se é que isso faz alguma diferença, atualmente estou usando principalmente Ruby, Java e Haskell), portanto esta resenha deve ser mais útil para quem tem um perfil parecido. Mas, se este não é seu caso, não precisa abandonar a leitura ainda. O velho ditado já dizia que ninguém é de ferro e quem sou eu para contrariar velhos ditados? Eu também escuto música, assisto vídeos e uso alguns aparelhos externos como câmeras digitais e tocadores de música, coisas que todo mundo exige de um computador hoje em dia — e que em muitos casos são tudo que se exige. Só não espere encontrar algo sobre aplicativos de escritório por aqui.

O sistema

A máquina que estou usando para estes testes é meu sistema de casa. Na época em que a montei (há uns bons dois anos e meio) ela era razoavelmente possante, mas acho que hoje em dia equivale a um PC médio desses que já vêm encaixotado e que os vendedores de supermercado empurram para quem está “procurando um computador”. É um Athlon XP (32 bits) 2000+ com 512MB de memória RAM, 160GB de disco rídigo e placa de vídeo com chipset NVidia FX 5200 e 128MB de memória.

Na minha classificação esta máquina com certeza não está acima de “razoável”. Apesar disso, tanto com o Debian como com o Ubuntu, ela consegue se sair bem para o que preciso atualmente e não demonstra sinais de cansaço mesmo quando estou usando um ambiente de desenvolvimento muitas vezes considerado pesado (e, para quem conhece, este seria o Eclipse com alguns plugins personalizados), navegando com algumas abas abertas e com os efeitos de desktop 3D ativados.

Portanto, ponto para as duas distribuições no quesito performance.

Instalação

O processo de instalação para cada umas das duas distribuições demorou pouco mais de uma hora. Boa parte deste tempo foi usado na comunicação com os servidores. Eu fiz a instalação logo após os lançamentos oficiais e é de se esperar que o tempo seja um menor agora que o servidores estão um pouco menos sobrecarregados. Obviamente, tudo isso depende também da qualidade da sua conexão com a Internet.

Esperar uma hora pela instalação do sistema operacional não é uma das coisas mais divertidas que se pode fazer com um computador. No entanto, a instalação do Ubuntu brilha nesta área. O processo todo é feito a partir de um CD Live e o sistema pode ser usado normalmente durante a instalação. Isso significa que enquanto tudo é instalado você pode ler seus e-mails e notícias ou então começar a preparar algum artigo para o seu blog. A instalação do Debian, por outro lado, roda em modo texto. Você ainda pode navegar na Internet usando o lynx ou algum outro navegador em modo texto, mas a experiência com certeza não é a mesma. De qualquer modo, o processo não é tão traumático porque não é todo dia que você vai reinstalar um sistema Debian do zero. O meu poderia ter sido atualizado normalmente a partir da versão Sarge, só fiz uma instalação limpa para poder relatar minhas experiências aqui para meus 80 milhões de leitores.

Outro recurso da instalação do Ubuntu que me agradou bastante foi a habilidade de importar dados pessoais de outros sistemas operacionais. Isto permite, por exemplo, que você importe do seu Windows coisas como mensagens de e-mail salvas localmente, endereço de acesso ao Messenger e endereços gravados no seu navegador. Eu não precisava disso dessa vez, mas teria sido bem útil há um ano e meio quando instalei meu primeiro Ubuntu (que também foi meu primeiro Linux). Parabéns para a equipe do Ubuntu por facilitar a migração.

Colírio para seus olhos

Um dos recursos mais polêmicos desta versão do Ubuntu foi a inclusão de efeitos 3D para a área de trabalho. Durante o desenvolvimento do Feisty os boatos se espalhavam rapidamente. Era comum escutar numa semana que os efeitos estariam dentro e ver a notícia ser desmentida na semana seguinte.

Falar em efeitos visuais para desktop Linux ultimamente é falar de XGL, Compiz e Beryl. Porém, o pivô de toda a polêmica não foi nenhum dos três. Por trás de tudo estavam os drivers binários.

Os drivers de código-aberto para placas 3D sob Linux ainda não têm todos os recursos necessários para proporcionar o tipo de experiência que o Ubuntu queria. Como a filosofia do projeto é não incluir código proprietário na instalação padrão, eles precisaram chegar a algum meio termo razoável. E finalmente conseguiram: disponibilizaram os drivers proprietários de forma fácil após a instalação. Desse modo, quem quer ativar os recursos avançados pode fazê-lo facilmente ao mesmo tempo que aqueles que não fazem questão não precisam executar código proprietário.

A instalação dos drivers 3D está a dois cliques da instalação padrão. Depois que a instalação estiver concluída, é só parar de ler seus e-mails, reiniciar a máquina e seguir para Sistema > Administração > Gerenciador de Drivers Restritos. Isto vai fazer com que o driver seja automaticamente baixado e instalado. Para ativar os efeitos é só marcar um campo em Sistema > Preferências > Efeitos da Área de Trabalho. Fácil assim.

Resumo

Instalar e rodar as duas distribuições está bem fácil. A configuração padrão vem com os programas mais comuns e depois só é preciso adicionar aqueles outros mais específicos. Não é preciso saber exatamente que programas você precisa para fazer uma instalação, mas é possível escolher um por um se você souber o que quer.

O Ubuntu sai na frente para quem quer admirar alguns efeitos visuais interessantes no desktop por permitir a instalação fácil dos drivers binários e a ativação simples dos recursos visuais. Nada é impossível com o Debian, mas talvez você tenha que pesquisar e perguntar para mais pessoas e acabe levando um pouco mais de tempo.

Este artigo é apenas a primeira parte da resenha. A próxima parte, que será publicada em breve, irá se concentrar nos recursos multimídia, incluindo integração com dispositivos externos.

A grandiosidade do pequeno

O mundo todo é formado a partir de coisas pequenas. Não importa quão grande seja a casa daquele novo figurão, ela precisa ser construída tijolo a tijolo. Enxames são feitos de pequenas abelhas, países são feitos de cidadãos e mercados são feitos de negociantes. No entanto, o resultado final do conjunto em todos os casos é um conglomerado grandioso e costuma ser considerado uma entidade única por vários motivos, que vão do retórico ao pedagógico. Fica difícil ver a floresta inteira quando se está no meio das árvores. Para entender o todo, precisamos ignorar por um momento as partes e analisar o conjunto como uma entidade única.

Isso é importante em muitas situações e não há como negar que o homem só chegou onde está por ter desenvolvido essa capacidade. Mas estamos acostumados a partir das partes para o todo. Estamos acostumados a sintetizar. O perigo mora no caminho inverso: tratar o todo como um entidade indivisível e esquecer que para mudá-lo é preciso dispensar muita atenção para as partes.

Quando uma empresa precisa melhorar sua capacidade de produção ou velocidade de resposta, uma das piores coisas que se pode fazer é tentar projetar e aplicar uma metodologia qualquer que trate a organização inteira como uma grande equipe. Tudo que uma grande organização menos precisa é de uma metodologia para uma equipe de centenas de pessoas. O que ela precisa na verdade é de centenas de equipes de poucas pessoas. Não é preciso achar uma metodologia gorda e formar uma equipe gigante, mas formar equipes pequenas e arrumar metodologias enxutas.

Necessariamente nesta ordem.

Todo mundo já ouviu falar que formas ágeis de trabalho funcionam melhor para equipes pequenas e há quem prefira abordagens mais peso-pesado justamente por este motivo. O interessante é que isto não é uma fraqueza. Qualquer abordagem para coordenação de pessoas funciona melhor com equipes pequenas. Portanto, ter equipes grandes não é motivo para evitar uma abordagem ágil. Os grupos de trabalho simplesmente deveriam ser menores. Grupos pequenos conseguem se organizar e comunicar-se mais facilmente do que grupos grandes simplesmente porque há menos gente para coordenar. Se você tentar reunir mais de duas pessoas para escolher um único prato em um restaurante novo, vai saber do que estou falando.

Equipes pequenas costumam vencer as grandes no quesito adaptabilidade. O pequeno e simples é mais rápido para se adaptar. Bactérias, por exemplo, são extremamente adaptáveis justamente por serem criaturas bem simples. São capazes de se reproduzir e evoluir tão rapidamente que os médicos precisam evitar prescrever os mesmos antibióticos por períodos prolongados para uma mesma população a fim de evitar que elas se acostumem à droga e evoluam para algum tipo de super-bactéria resistente à medicação. A capacidade de adaptação delas é tamanha que “períodos prolongados” aqui são medidos no máximo em algumas dezenas de anos, ao contrário dos vários milhares de anos necessários para a evolução de organismos mais complexos como o homem. O mesmo ocorre com equipes pequenas. Na presença de uma adversidade ou mudança de ambiente, elas podem mudar de rumo muito mais rápido que uma equipe com algumas dezenas de pessoas.

Blogs-diário, blogs-opinião e minha tentativa como entrevistador

Tem um tipo de blog pelo qual tenho uma ojeriza tremenda: o blog-diário. Acho que eles já pararam de fazer isso (porque migraram para os sites de relacionamento), mas sabe aqueles blogs de adolescentes cujos artigos costumam ser sobre a festinha de ontem ou a bronca que o professor passou na turma hoje mais cedo? Sabe aqueles blogs cujos artigos mais elaborados são aqueles que têm uma letra de música qualquer que o autor e seus amiguinhos estavam escutando no dia (e mais nada)?

Este tipo de coisa não acontece somente com garotos e garotas de 14 anos, alguns blogueiros na área de tecnologia também estão infectados com a mesma doença. Neste caso os assuntos mudam um pouco. Passam a ser sobre o último release dos seus projetos, as conferências mais badaladas e os encontros de grupos de usuários locais. Eles podem não notar, mas estão agindo do mesmo modo que os adolescentes. Estão somente publicando um diário de bordo.

Acho que blogs deveriam ser um meio para publicar opiniões e vê-las serem destrinchadas, atacadas e testadas. Se estivéssemos em uma revista semanal, os blogs deveriam ser mais como uma coluna ou um editorial do que como o resumo da semana. Os leitores não querem saber o quanto o autor é inteligente, produtivo ou como tem sucesso em tudo que resolve fazer. Ao invés disso, um blog deve ser um espaço para o autor ajudar os leitores a se tornarem mais inteligentes, produtivos e a terem mais sucesso em tudo que resolverem fazer.

Apesar disso tudo, acabei caindo nesta armadilha em conseqüência da correria nossa de cada dia. Se você consultar os históricos aqui do blog, vai ver que os dois últimos artigos anteriores a este se encaixam perfeitamente no que eu descrevi como artigos de blog-diário. O último é só um anúncio de reunião de grupo de usuários e o penúltimo uma bela de uma babada em meu próprio trabalho juntamente com o anúncio da publicação do Motiro (não consegui resistir a mais um link). Mas o sinal mais alarmante de que eu estou usando meu blog como um diário é que este mesmo artigo que você está lendo agora também é só mais uma anotação de diário.

Sim, eu publiquei toda esta introspecção e fiz você ler até aqui somente para anunciar que participei da entrevista que o Eduardo Fiorezi fez com o Vitor Pamplona. Foi bastante gratificante receber um segundo convite para o programa do Eduardo, principalmente por ter sido surpreendido com uma posição de entrevistador ao invés de entrevistado e pela estrela do programa ser uma figura tão relevante.

Espero que com estes três últimos artigos eu não tenha perdido metade da minha audiência, mas prometo que vou fazer de tudo para que o próximo revele algum pensamento interessante sobre tecnologia.

Por enquanto, um anúncio de entrevista disfarçado de reflexão é tudo que tenho a oferecer.