A grandiosidade do pequeno

O mundo todo é formado a partir de coisas pequenas. Não importa quão grande seja a casa daquele novo figurão, ela precisa ser construída tijolo a tijolo. Enxames são feitos de pequenas abelhas, países são feitos de cidadãos e mercados são feitos de negociantes. No entanto, o resultado final do conjunto em todos os casos é um conglomerado grandioso e costuma ser considerado uma entidade única por vários motivos, que vão do retórico ao pedagógico. Fica difícil ver a floresta inteira quando se está no meio das árvores. Para entender o todo, precisamos ignorar por um momento as partes e analisar o conjunto como uma entidade única.

Isso é importante em muitas situações e não há como negar que o homem só chegou onde está por ter desenvolvido essa capacidade. Mas estamos acostumados a partir das partes para o todo. Estamos acostumados a sintetizar. O perigo mora no caminho inverso: tratar o todo como um entidade indivisível e esquecer que para mudá-lo é preciso dispensar muita atenção para as partes.

Quando uma empresa precisa melhorar sua capacidade de produção ou velocidade de resposta, uma das piores coisas que se pode fazer é tentar projetar e aplicar uma metodologia qualquer que trate a organização inteira como uma grande equipe. Tudo que uma grande organização menos precisa é de uma metodologia para uma equipe de centenas de pessoas. O que ela precisa na verdade é de centenas de equipes de poucas pessoas. Não é preciso achar uma metodologia gorda e formar uma equipe gigante, mas formar equipes pequenas e arrumar metodologias enxutas.

Necessariamente nesta ordem.

Todo mundo já ouviu falar que formas ágeis de trabalho funcionam melhor para equipes pequenas e há quem prefira abordagens mais peso-pesado justamente por este motivo. O interessante é que isto não é uma fraqueza. Qualquer abordagem para coordenação de pessoas funciona melhor com equipes pequenas. Portanto, ter equipes grandes não é motivo para evitar uma abordagem ágil. Os grupos de trabalho simplesmente deveriam ser menores. Grupos pequenos conseguem se organizar e comunicar-se mais facilmente do que grupos grandes simplesmente porque há menos gente para coordenar. Se você tentar reunir mais de duas pessoas para escolher um único prato em um restaurante novo, vai saber do que estou falando.

Equipes pequenas costumam vencer as grandes no quesito adaptabilidade. O pequeno e simples é mais rápido para se adaptar. Bactérias, por exemplo, são extremamente adaptáveis justamente por serem criaturas bem simples. São capazes de se reproduzir e evoluir tão rapidamente que os médicos precisam evitar prescrever os mesmos antibióticos por períodos prolongados para uma mesma população a fim de evitar que elas se acostumem à droga e evoluam para algum tipo de super-bactéria resistente à medicação. A capacidade de adaptação delas é tamanha que “períodos prolongados” aqui são medidos no máximo em algumas dezenas de anos, ao contrário dos vários milhares de anos necessários para a evolução de organismos mais complexos como o homem. O mesmo ocorre com equipes pequenas. Na presença de uma adversidade ou mudança de ambiente, elas podem mudar de rumo muito mais rápido que uma equipe com algumas dezenas de pessoas.

5 Responses to “A grandiosidade do pequeno”


  1. 1 Davis 19/abr/2007 às 13\0132

    Ótimo texto.
    Exatamente da forma que penso. Inclusive, tenho experiências apenas com pequenos grupos e noto bem essa flexibilidade.

  2. 2 Marcos Silva Pereira 19/abr/2007 às 21\0949

    Times Bactéria. Gostei, Arrais; :-)

    “Não é preciso achar uma metodologia gorda e formar uma equipe gigante, mas formar equipes pequenas e arrumar metodologias enxutas.”

    Esse trecho do texto me fez pensar em um ponto que o teu post não toca diretamente, mas que é importante quando se trata da melhoria na interação das partes.

    Quando se tem uma equipe grande e existe um gargalo, como encontra-lo se a equipe é um todo? Como eu posso melhorar algum aspecto do processo para toda a equipe, se há partes que podem ser prejudicadas pela “melhoria”? Grandeza gera gastos e a natureza sabe muito bem disso – vide o fato de haver uma infinidade de pequenos organismos em comparação com grandes bestas, tais como elefantes.

    Equipes pequenas, por outro lado, podem fazer melhorias pontuais especificas para si mesmas. Podem identificar melhor gargalos na interação com as outras equipes e podem, assim, melhorar mais rapidamente.

    valeuz…

  3. 3 Cleiton Lima 01/maio/2007 às 04\0428

    Meu bom Thiago, gostaria de deixar umas poucas palavras sobre ‘A Grandiosidade do Pequeno’. Tenho observado no mundo atual uma tendência a utilização de ‘Grandes Coisas’ em detrimento das ‘Pequenas Coisas’. Nos acostumamos a prestar bastante atenção a grandes equipes, eventos, metodologias, ferramentas e processos. E não nos atentamos para uma simples armadilha: por trás de ‘Grandes Coisas’ estão os ‘Grandes Mercados’, e os grandes arquitetos fomentam uma grande alimentação do senso-comum.

    Façamos um pequeno exercício: Por quê usar um Framework repleto de soluções para problemas que minha aplicação nunca terá? Por quê instanciar um Processo recheado de atividades, sub-atividades, pápeis e artefatos numa empresa onde os grupos de trabalho não passam de dez pessoas? Por quê comprar/usar uma ferramenta entornando plugins e toolkits prontos para suportar uma atividade que para ser executada (para a grande maioria dos casos) necessita apenas de um pequeno subconjunto deles?

    Não seria mais inteligente, tomarmos algumas pequenas decisões sobre o que é necessário e relevante, e deixar que as necessidades emerjam do comportamento das pessoas/indivíduos/equipes durante a execução das nossas tarefas? Não foi assim que surgiram os Design Patterns, como soluções reusáveis para problemas recorrentes? Não foi assim que as formigas e as abelhas aprenderam com pequenos passos, interações e comunicações a criar grandes coisas e a realizar atividades tão inteligentes? Não foi começando dos pequenos problemas emergentes que foram naturalmente surgindo as Grandes Ciências?

    Só dando um lembrete duma área que estudo com paixão: os primeiros cientistas da Inteligência Artificial começaram com um desafio nada pequeno: criar máquinas que pudessem pensar e realizar atividades sofisticadas que o ser humano realiza com facilidade… Resultado, eles tiveram que perceber que era melhor entender a fundo como o cérebro e outras ‘máquinas’ naturais (repletas de milhares de pequenas peças que realizam pequenas tarefas paralelamente) realizavam estas tarefas consideradas inteligentes. Bingo! A natura já nos deu a reposta: os grandes sistemas naturais no fim são pequenos ‘indivíduos’, interagindo, realizando, recebendo feedback do ambiente, aprendendo e se adaptando! Essa analogia lembra algo?

    No mais, Thiago e Zumba e demais personas:
    Axé Thanks & Carpe Diem.

  4. 4 Marcos Silva Pereira 01/maio/2007 às 06\0617

    Cleiton Lima, :-P

    “Não seria mais inteligente, tomarmos algumas pequenas decisões sobre o que é necessário e relevante”

    Sim! Um detalhe importante sobre pequenas decisões é que elas tem uma carga de reversibilidade tão grande que lhes chega a ser inerente. Se vc cometeu um erro ao tomar uma pequena decisão, simplesmente refaça a decisão para se ajustar ao novo ambiente – conhecimento – que lhe fizeram perceber o erro.

    É claro que grandes decisões devem ser tomadas também. A Big Picture sobre o projeto, ou a empresa, mas elas geralmente não possuem, e, na minha opinião, nem poderiam, o mesmo grau de reversibilidade das pequenas decisões.

    “deixar que as necessidades emerjam do comportamento das pessoas/indivíduos/equipes durante a execução das nossas tarefas?”

    Isso me fez lembra de uma maxima: um tolo com uma ferramenta continua sendo um tolo, só que mais perigoso. Nem a melhor metodologia de todas funciona sem as pessoas certas. Entretando, as pessoas certas podem realizar grandes trabalhos mesmo sem a metodologia adequada. Então, qual o resultado quando se tem o grupo certo e a metodologia certa?

    valeuz…


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