Pequenas vitórias

Todos nós já experimentamos. Alguns se arrependem e outros nem tanto. Alguns conseguiram encontrar um modo de se livrar e outros nem tentaram. Mas quase todo programador já trabalhou em “modo cego”.

Por meses seguidos.

Saber quando uma equipe está trabalhando em modo cego é fácil: é só perguntar quanto tempo faz desde que receberam algum tipo de comentário de um usuário final. Mais de um mês é um bom sinal de que estão ficando cegos. O tempo exato depende muito do tipo de aplicação que estão desenvolvendo, mas um mês geralmente é tempo demais para andar sem saber para onde vai. Além disso, não faz mal lembrar que um representante do usuário é melhor do que nada, mas não é páreo para um usuário de verdade.

Evitar entrar em modo cego também é fácil: basta estipular um prazo curto e entregar a aplicação do modo como estiver quando a data chegar. Durante este período a equipe exercita simultaneamente todas as habilidades que os aspirantes a desenvolvedor de software tão sabiamente estudam nas suas escolas, de modo a ter sempre algo usável. Fazer isso dá trabalho porque é preciso tomar algumas providências para garantir que a aplicação esteja pronta para ser entregue a todo momento. Afinal, a equipe certamente não vai querer chegar à data combinada sem ter algo apresentável. Mas não é nada humanamente impossível.

Apesar da atenção precisar ser redobrada, o resultado compensa. O usuário poderá oferecer seus comentários depois de ter colocado as mãos em algo concreto. Qualquer forma de tentar artificializar esta experiência através de documentos de especificação, apresentações elaboradas ou emaranhados de diagramas com certeza não oferecerá a mesma expressividade.

A possibilidade de receber continuamente comentários e sugestões de qualidade funciona como poderoso combustível para o potencial da equipe. Quando esta força energizante está disponível, há mais chance de se obter o sucesso. Há mais chance para vencer. Porém, como os períodos de iteração são curtos, estas vitórias serão necessariamente pequenas. Não há tempo para fazer nada muito grandioso e será necessário saber acumular estas pequenas vitórias ao longo do tempo para atingir uma vitória maior.

Ciclos curtos permitem que sejam alcançadas pequenas vitórias. Fracassos vão inevitavelmente se interpor no caminho da equipe, mas também serão pequenos. Estarão contidos em um período suficientemente pequeno para que não causem grande estrago e as vitórias serão tão mais freqüentes que eles passarão quase desapercebidos. Uma vitória pequena puxa a outra, e uma derrota pequena não faz muita diferença. Assim o moral da equipe é estimulado e o sucesso é naturalmente atraído. Ciclos longos, por outro lado, permitem causar grandes surpresas. Quando se trabalha muito tempo sem divulgar sua evolução, o resultado só pode ser grandioso. Se for um sucesso, será uma vitória estupenda. Mas a maior chance é que seja uma derrota miserável.

Porém há ainda quem sinta falta das vitórias extravagantes ou pelo menos do alívio de saber que acabou de deixar uma quantidade monumental de trabalho para trás. Muitas equipes que trabalham às cegas durante muito tempo costumam comemorar estrondosamente as entregas. Mesmo quando são tremendos fracassos comemorar é natural simplesmente porque todos acabam de se livrar de um fardo bastante pesado. Com ciclos curtos, esse sentimento se perde. Não faz muito sentido comemorar a entrega de uma semana de trabalho. Ao fim de dois meses, uma equipe com ciclos de uma semana provavelmente vai ter uma vitória acumulada muito maior do que uma equipe com um único ciclo de dois meses. Apesar disso, a segunda vai comemorar muito mais.

Usar prazos curtos para as entregas é uma boa forma de garantir que elas sejam vitoriosas. Pequenas vitórias, mas vitórias.

2 Responses to “Pequenas vitórias”


  1. 1 Eduardo fiorezi 04/maio/2007 às 23\1152

    Fala Thiago,

    Só não concordo com uma coisa….

    Pode-se comemorar muitoooooo a cada iteração… mais ainda depois de entregar algum release curto… Ou seja,, muitas vitórias e muitas comemorações…
    Não somos o pais da alegria?

    Quando tiver a oportunidade de levar uma equipe que consiga dar grandes resultados a cada semana,,, cada semana vai ser uma comemoração…

    Um grande abraço,
    Eduardo Fiorezi

  2. 2 Raphael 17/maio/2007 às 13\0103

    Uma coisa que me deixou com a pulga atrás da orelha: e quando não é possível esse ciclo curto?
    Por exemplo, estou na fase inicial de um sistema de comunicação interna que vai levar uns 4 meses pra sair… ouvi do usuário ontem “pois é né, a gente só vai ter como saber se está bom quando ver funcionando”, mas, para funcionar, precisa realmente estar funcionando, com todos os 50 setores e departamentos e etc usando, senão, não funciona.
    Adoraria poder ter esse ciclo pequeno, vitórias pequenas a cada dia é praticamente um lema, mas tenho que adaptar isso a um software que vai ter uma versão beta daqui a uns 4 meses.


Comments are currently closed.




%d blogueiros gostam disto: