Muletas de papel

Há organizações que se esforçam bastante para ter um processo de desenvolvimento de software determinístico e completamente detalhado. O modo mais comum de realizar isso é confeccionar algum tipo de documento eletrônico (um site interno ou algo parecido) especificando todos os procedimentos que os funcionários precisam seguir, que formulários precisam preencher, com quem devem falar e em que momento espera-se que realizem cada uma das atividades. Em muitos desses lugares o Processo é tratado como um verdadeiro tesouro, o recurso mais importante da empresa, por razões um tanto quanto “pragmáticas”. Pelo menos é o que os responsáveis pelo Processo dizem. Ninguém que pretende ser profissionalmente respeitável vai falar que faz algo por intuição ou crendice.

O Processo teoricamente permite que a empresa aproveite as novas contratações com um mínimo de tempo de treinamento e entrosamento. Com um Processo elaborado, quando um novato chega ele só precisa consultar as escrituras, seguir as ordens, conseguir os mais novos modelos de documentos e preencher as lacunas. A idéia é que, se toda a equipe fizer isso e tiver bastante sorte, no fim das contas vão produzir software útil, interessante e barato.

Mas obviamente isto não costuma passar de uma idéia bem intencionada.

Documentos detalhando tudo o que qualquer funcionário possa um dia precisar fazem todo o sentido para organizações em que novatos inexperientes são maioria. Eles podem começar a produzir mais rapidamente do que se esperássemos o tempo necessário para que se adaptassem e evoluíssem. Eles não precisam perder tempo absorvendo a cultura da empresa, porque a cultura oficial já está escrita e devidamente catalogada. Novatos inexperientes também costumam ficar mais exigentes quando começam a se tornar um pouco menos inexperientes. Um processo bem documentado permite trocá-los por sangue novo quando começam a pedir aumentos e benefícios.

O problema com os processos detalhados e rígidos aparece quando a organização quer ter um relacionamento saudável e de respeito com os funcionários, incentivando e premiando o aprendizado ao invés de puní-lo. O Processo serve como aquelas rodinhas para quem está aprendendo a andar de bicicleta. Elas ajudam a não cair, mas nenhum campeão olímpico cogita usá-las. Depois que as pessoas aperfeiçoam suas habilidades e tornam-se capazes de andar sozinhas, aquela parafernália toda só atrapalha. Como já são experientes, sabem instintivamente o que é importante e podem adaptar o processo padrão conforme necessário sob demanda. Eles conseguem eliminar gargalos e otimizar procedimentos sem muita burocracia e muitas vezes sem nem perceber que estão fazendo isso. Gargalos atrapalham o desenrolar dos trabalhos e costumam ser flagrantemente visíveis, as pessoas eliminam alguns deles todos os dias simplesmente porque as incomodam.

Infelizmente fazer isso fica infinitamente mais difícil na presença do Processo, por causa das diversas lacunas a serem preenchidas e dos procedimentos a serem seguidos. Como tudo precisa ser muito bem pensado, definido e aprovado, não sobra espaço para coisas bobas como instinto e melhoria inconsciente. O triste resultado de todo este esforço de formalização é ver pessoas que poderiam se programadores brilhantes se limitando a domar a burocracia. Não adianta se concentrar em ter o formato dos documentos padronizado se o conteúdo não tem valor. Do mesmo modo, não é possível adaptar o formato a um conteúdo de valor se ele é definido previamente e gravado em pedra por alguma entidade externa à equipe. Planos são úteis somente na medida em que ajudam o planejamento, afinal o importante é realizar a atividade, não produzir o documento seguindo à risca o modelo padrão. O importante é o planejamento, não o plano. A atividade, não o sub-produto.

Os lindos modelos, diagramas coloridos e documentos reluzentes servem como muletas de papel feitas para ajudar quem está mal das pernas. Se pensarmos bem, não há nada mais natural para quem não quer confiar no talento das pessoas. Mas para quem quer andar com desenvoltura e desviar dos obstáculos do caminho, muletas só servem para atrapalhar.

8 Responses to “Muletas de papel”


  1. 1 Raony Araújo 25/set/2007 às 13\0129

    Sobre gargalos flagrantemente visíveis, eu acrescentaria: para quem está diante dos fatos, e não dos dados. Isto é, para quem vivencia os fatos o gargalo é percebido mais facilmente. Porém, para aqueles senhores sentados confortavelmente em suas cadeiras e que recebem relatórios com dados sobre o problema, pode não ser tão fácil assim. É sobre isso que trata o genchi-genbutsu do toyota way, por exemplo, um artigo sobre: http://www.shmula.com/430/genchi-genbutsu-and-tipping-point-leadership

    abraços.

  2. 2 marcospereira 27/set/2007 às 03\0323

    Arrais,

    “coisas bobas como instinto e melhoria inconsciente”, ou seja, bom senso. Dá para documentar o bom senso?

    valeuz…

  3. 3 Rafael Leão 27/set/2007 às 04\0434

    Meu irmão, eu não falaria isso se não soubesse do que estou falando…! “Mas para quem quer andar com desenvoltura e desviar dos obstáculos do caminho, muletas só servem para atrapalhar.”

    Só uma dica, quem é deficiente e precisa usar muletas de qualquer jeito, não achariam muito legal essa sua frase.

  4. 4 Raony Araújo 27/set/2007 às 13\0107

    concordo com rafael, e digo mais, há quem seja deficiente do bom senso e precise de muletas mentais (seja de papel ou não). E que devem ser compreendidos da mesma forma que os deficientes físicos.

  5. 5 Rodrigo Araujo 27/set/2007 às 18\0634

    Polêmico o assunto! Não defendo os processos estáticos e imutáveis que são encontrados por ai… mas também não posso concordar com seu comentário extremista.

    Ainda usando suas metáforas: O grande problema de não ter processos para seguir e que cada “atleta” pode saber correr muito bem sem a ajuda das “muletas”. Porém de nada adianta ter uma equipe onde todos andam com velocidade se ela não sabe para qual direção cada um deve correr.

    Eu acredito que processos são muito úteis, mas não precisam ser detalhados a ponto de só deixar lacunas para serem preenchidas. E o processo deve estar sempre em mutação, o bom senso da equipe deve sempre ajusta-lo para ficar cada dia melhor :)

  6. 6 marcospereira 01/out/2007 às 00\1230

    Rodrigo,

    É verdade que muita velocidade não adianta se vc está indo para o lado errado. Algum general – Napoleão, acho – dizia que não há maior ineficiência do que um general eficiente executando a tarefa errada.

    Mas, limitando o conceito de processo ao contexto que estamos discutindo, é mesmo necessário um processo para saber a direção correta?

    abraço…

  7. 7 thiagoarrais 01/out/2007 às 14\0238

    Marcos e Rodrigo, essas são observações interessantes. Ainda mais se pensarmos que um processo gigante pode ser ele mesmo a direção errada. As pessoas começam a se desviar do objetivo real do projeto (entregar ao cliente software que execute) para simplesmente alimentar o Processo.

    As organizações podem incentivar ainda mais esse tipo de desvio ao criar grupos específicos para estudo e melhoria do Processo.

  8. 8 Rodrigo Araujo 03/out/2007 às 13\0131

    Sem dúvida que o processo pode ele mesmo apontar para a direção errada! E pelo que observo na prática é que muitas vezes eles fazem isto mesmo, muitas vezes porque não são feitos com foco em entregar o produto que o cliente quer, com o menor custo de tempo e dinheiro. E sim se adequar a padrões mal interpretados.
    Mas eu tentei explicar que a equipe como um todo tem que “correr” para um lado em conjunto, de nada adianta o D1 correr 30º a direita e o D2 correr 5º a esquerda. :)
    Ainda acho que a melhor maneira para alinhar os objetivos da equipe é ter o mínimo de processos. E isso não é mistério, metodologias ágeis tem suas diretrizes para ajudar a equipe trabalhar em conjunto em busca de um objetivo único, e isto pode ser visto como um determinado “processo” mesmo que ele não seja formal e documentando na Internet da empresa.


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